Cadernos Abertos · 01 · cifra autoral

EU e eu

a presença que observa e a personalidade que reage

Existe uma cifra que aparece com frequência nos meus textos: a distinção entre eu em letras minúsculas e EU em maiúsculas.

O eu é a personalidade, o conjunto de reações, vozes, opiniões, medos, hábitos. É mecânico. Acorda, reage, fala, briga, come, dorme. Acha-se unitário, mas é multiplicidade. Em uma manhã, vários eus se sucedem dentro de uma pessoa. O eu que promete a dieta na noite anterior não é o mesmo que acorda querendo café com pão. O eu que diz "amanhã eu mudo" não é o mesmo que repete o gesto antigo às quinze horas. A pessoa se acha estável, mas é uma sucessão de estados mecânicos que vão e voltam.

O EU em maiúsculas é outra coisa. A presença silenciosa que observa tudo isso operando. Não é um eu melhor, mais elevado, mais sábio. É uma testemunha. Apenas vê.

A diferença entre essas duas instâncias é a base de quase todo o trabalho interior. No começo do caminho, eu está bem forte e EU se manifesta poucas vezes. Eu vive a vida, reage, sofre. EU aparece em alguns instantes, geralmente quando o sofrimento de eu fica grande demais e algo dentro chama por outra coisa.

Com o tempo, EU começa a aparecer mais. Não porque vence eu, mas porque eu desiste, em momentos pontuais, de ser o único motorista. O EU passa a observar o eu reagindo. E quando essa observação acontece de verdade, as máscaras do eu caem. Não pra sempre. Caem naquele momento.

A vida interior não é uma transformação dramática onde EU substitui o eu definitivamente. É um exercício diário de reconhecimento. Notar quando o eu está no comando. Voltar pra EU sempre que possível. Aceitar que o eu vai voltar a dirigir. Voltar de novo.

Essa é a oscilação. E essa oscilação é o trabalho.