Quando o medo da própria vida assume
o medo sem objeto · o que aparece quando algo dentro está prestes a mudar
Tem um tipo de medo que não tem objeto. Não é medo de altura, de doença, de perder dinheiro. É medo da própria vida. Aparece sem aviso, em qualquer momento. A pessoa está sentada no sofá lendo um livro, e de repente sente uma onda de pânico difuso, como se algo dentro dela estivesse ameaçando engolir tudo.
Quem fez algum trabalho interior reconhece esse medo. Ele costuma aparecer justamente quando alguma transformação real está prestes a acontecer. O sistema antigo da pessoa sente que vai morrer, e reage. Não morre o corpo, morre uma estrutura interna. Mas pra parte do sistema nervoso que ainda não distingue uma coisa da outra, é a mesma coisa.
Não tem solução técnica pra esse medo. Não adianta racionalizar, dizer pra si mesmo que não há perigo real. O medo opera em outro nível, anterior à razão. A única coisa que funciona é atravessar. Sentar com o medo. Sentir o medo sem fugir. Esperar que ele se mostre por inteiro e passe.
Quando passa, alguma coisa nova aparece do outro lado. Geralmente um senso de espaço maior. Como se o medo tivesse sido a porta pra um lugar mais aberto. Mas isso só se descobre depois, atravessando. Antes, é só medo, e parece que vai ser pra sempre.
É uma das experiências mais íntimas do trabalho interior. Quase ninguém fala dela, porque é difícil de descrever. Quem já passou, reconhece quando outro descreve.