O Poder do Mito
a jornada do herói como estrutura universal do desenvolvimento psíquico
"As pessoas dizem que o que todos buscamos é um sentido para a vida. Não creio. O que estamos buscando é uma experiência de estar vivos." — Joseph Campbell
Joseph Campbell publicou O Poder do Mito em 1988, em parceria com o jornalista Bill Moyers. O livro é, na verdade, a transcrição editada de uma série de conversas filmadas pra PBS. Por isso a linguagem é falada, fluida, sem o peso acadêmico da obra anterior dele (O Herói de Mil Faces, 1949, que sistematizou a jornada do herói arquetípica). Pra quem está chegando ao Campbell pela primeira vez, esse é o melhor ponto de entrada.
A tese central
A tese central de Campbell, desenvolvida ao longo de cinquenta anos de estudo comparativo, é radical na sua amplitude. Ele propõe que todas as grandes mitologias do mundo, separadas por milênios e continentes, contam essencialmente a mesma história. Variam os nomes, as paisagens, os detalhes, mas a estrutura profunda se repete: um herói (que pode ser qualquer pessoa) é chamado pra uma aventura, resiste, atravessa um portal, enfrenta provações, encontra aliados e inimigos arquetípicos, morre simbolicamente, renasce com algo novo, e retorna pra comunidade trazendo um dom que aprendeu na travessia.
Essa estrutura, que Campbell chama de "jornada do herói" ou "monomito", não é coincidência. Pra ele, ela aparece em todas as culturas porque corresponde à estrutura do desenvolvimento psíquico humano. Toda pessoa, ao longo da vida, é chamada várias vezes a atravessar essa jornada em escalas diferentes: na adolescência, ao casar, ao perder alguém, ao trocar de carreira, ao envelhecer, ao morrer. Quem reconhece o padrão, navega melhor.
A camada extra do diálogo com Moyers
O livro tem uma camada extra que o torna especial. Bill Moyers conduz as conversas como provocador inteligente, e isso impede Campbell de se acomodar em didatismo. Ele é forçado a aterrissar suas teses em exemplos concretos da vida moderna. Discute como Star Wars usa estrutura mitológica clássica, como casamentos contemporâneos se desconectaram da função iniciática que tinham em outras culturas, como a publicidade ocupa o lugar simbólico que antes era da mitologia.
Pra quem trabalha com simbólico e arquetípico, Campbell é referência fundadora. A linguagem dele dialoga diretamente com Jung (eles foram contemporâneos e se respeitavam), mas tem alcance cultural maior. Onde Jung fica no consultório, Campbell vai pra cinema, literatura, religião comparada, ritos de passagem indígenas.
Diálogo com a Cabala e o Tarô
A conexão com a Cartografia Cabalística e com o trabalho da Cartaterapia é direta. Os arcanos do Tarô (estudados por Sallie Nichols, ver leitura 04) são versões iconográficas dos arquétipos que Campbell descreve em formato narrativo. A Árvore da Vida cabalística é mapa estrutural do mesmo território. Quem trabalha com qualquer um desses sistemas em profundidade encontra Campbell explicando o terreno por trás de todos eles.
O ponto valioso da obra é mostrar que mito não é mentira ancestral. É verdade psíquica codificada em narrativa. A linguagem da psicanálise descreve o sintoma. A linguagem do mito conta a história em que o sintoma faz sentido.